@liliaschwarcz
4.2Kposts
596.7Kfollowers
1.0Kfollowing
Antropóloga, historiadora, membra da Academia Brasileira de Letras, professora da USP e de Princeton.
As mulheres brasileiras já provaram, ao longo da história que podem ser o que desejarem ser. Há muitas diferenças. Mulheres negras e indígenas ainda sofrem muito mais discriminação e são alvo de violência de gênero ainda mais aguda, mas a luta continua. Nunca foi presente. Sempre foi conquista.
Em 1827, o Brasil autoriza escolas para as meninas, mas não para que pensem o mundo, para que aprendam o bordado e prendas domésticas. Em 1979, ocorre uma reforma que permite as mulheres que ingressem no ensino superior. Em 1887, Rita Lobato torna-se a primeira médica formada no Brasil.
“Simples assim”, diz o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, querendo tornar simples o que é mais que complexo. Na propaganda, ele que aparece vestido esportivamente — calça jeans, camiseta azul com a palavra de Florianópolis estampado e tênis, corpo atlético, bem de vida e expondo seu status quo de elite — avisa que quem quiser se mudar para a cidade tem que respeitar “as nossas regras”. Ele abusa da palavra “nossa”, como se estivesse imprimindo um sentido de posse. “Nossa rodoviária”, “nossa assistência social” diz ele. E orgulhoso afirma que se a pessoa “chegou sem emprego e lugar pra morar damos a passagem de volta”. O caso que ele usa como exemplo (e é uma vergonha expor uma pessoa assim mesmo nuançando o rosto) é de um senhor mais velho, evidentemente pobre, pois está de sandália havaiana e calça rasgada — e podemos acusar o prefeito de no mínimo etarismo e com certeza de xenofobia. Ele se orgulha ao afirmar que mais de 500 pessoas já “foram devolvidas”. Para onde mesmo? E termina: “Quem aqui desembarca deve respeitar as “nossas regras e nossa cultura”. Ou seja, e trocando em miúdos: nada de imigrantes pobre! Florianópolis não fica no Brasil? Brasileiros não tem livre circulação no seu território? O nome disso é autoritarismo e fascismo . Eugenia social. Que Brasil é esse que aparece nesse vídeo querendo passar a imagem de “civilizado”? É a barbárie.
Todos os dias centenas de pessoas chegam em Florianópolis por aqui, a nossa rodoviária. Para garantir um controle de quem chega, instalamos aqui um posto avançado da nossa assistência social. Se chegou sem emprego e local para morar, a gente dá a passagem de volta. É como esse caso aqui. Nós recebemos em Florianópolis um senhor que veio de um município que
Em minha opinião, precisamos incluir ainda mais África no ensino da nossa história. Na verdade, as muitas africas que fizeram o Brasil. Acredito que o caminho seja criar protagonistas que as crianças brasileiras se identifiquem.
Dia histórico para o Brasil. Jair Bolsonaro e os demais 7 réus, todos de alta patente, foram todos condenados. Agora só falta discutir a dosimetria das penas: que é a avaliação de cada pena. Hora de dar um basta ao escárnio, ao negacionismo, à falta de afeto, ao racismo, à misoginia, e (o que foi julgado) à tentativa de golpe e abolição do estado de direito. Hora de dar um basta às tentativas de suprimir a democracia e a república. Elas são maiores do que todos esses personagens que formaram uma quadrilha criminosa. Sorte a nossa viver como testemunhas desse dia histórico. Mas agora precisamos da verdadeira pacificação que será feita a partir do diálogo e da moderação dos ânimos.
Cultura imperial e etnocêntrica se inscreve nos grandes e pequenos detalhes. Por que será que chamamos de universal — o que é europeu ou norte-americano — e de regional, étnico, o que vem de outros países? Toda cultura é universal e também regional. @kleber_mendonca_filho @wagnermoura_brasil Um exemplo dessa postura foi o que aconteceu no último Critics Choice Awards 2026, que ocorreu nesse domingo (4 de jan) em Los Angeles O filme brasileiro “O Agente Secreto” — dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura (e se você ainda não viu, corre pra assistir na telinha do cinema) — conquistou a categoria de Melhor Filme Internacional / Melhor Filme em Língua Estrangeira. Essa é a primeira vez que um filme brasileiro vence nessa categoria no Critics Choice, considerado um dos principais prêmios da crítica cinematográfica ocidental e um termômetro importante para o Óscar. A vitória histórica, foi entregue, porém, de forma inesperada — para praticarmos um eufemismo. O anúncio (como vocês podem ver na primeira parte do vídeo desse insta) e a entrega do prêmio não aconteceram durante a cerimônia principal televisionada, como costuma ocorrer nas categorias de destaque. Em vez disso, o troféu foi entregue no tapete vermelho, antes da transmissão oficial, enquanto o diretor e a produtora concediam entrevistas. Por isso, Kleber e a equipe levaram um susto, a apresentadora norte-americana se saiu com um sorriso sem graça. Já os diretores não subiram ao palco para receber o prêmio nem fizeram discurso diante das câmeras. Tudo isso gerou estranhamento e críticas. O próprio Kleber comentou o episódio, classificando a decisão como uma “falta de atenção” ao cinema brasileiro, por não dar ao prêmio o mesmo destaque de outros anos. Como prêmio de consolação resolveram pedir para que Kleber e Wagner anunciassem o melhor filme (essa é a segunda parte do vídeo que apresento nesse post). Wagner deu o troco. Disse que ia anunciar o “filme internacional” pois é assim que no Brasil chamamos. Ou seja, mostrou como se para “eles”, “nós” somos estrangeiros. Já para “nós”, “eles” são estrangeiros. É preciso descolonizar a nossa imaginação.
As mulheres brasileiras já provaram, ao longo da história que podem ser o que desejarem ser. Há muitas diferenças. Mulheres negras e indígenas ainda sofrem muito mais discriminação e são alvo de violência de gênero ainda mais aguda, mas a luta continua. Nunca foi presente. Sempre foi conquista.
Em 1827, o Brasil autoriza escolas para as meninas, mas não para que pensem o mundo, para que aprendam o bordado e prendas domésticas. Em 1979, ocorre uma reforma que permite as mulheres que ingressem no ensino superior. Em 1887, Rita Lobato torna-se a primeira médica formada no Brasil.
“Simples assim”, diz o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, querendo tornar simples o que é mais que complexo. Na propaganda, ele que aparece vestido esportivamente — calça jeans, camiseta azul com a palavra de Florianópolis estampado e tênis, corpo atlético, bem de vida e expondo seu status quo de elite — avisa que quem quiser se mudar para a cidade tem que respeitar “as nossas regras”. Ele abusa da palavra “nossa”, como se estivesse imprimindo um sentido de posse. “Nossa rodoviária”, “nossa assistência social” diz ele. E orgulhoso afirma que se a pessoa “chegou sem emprego e lugar pra morar damos a passagem de volta”. O caso que ele usa como exemplo (e é uma vergonha expor uma pessoa assim mesmo nuançando o rosto) é de um senhor mais velho, evidentemente pobre, pois está de sandália havaiana e calça rasgada — e podemos acusar o prefeito de no mínimo etarismo e com certeza de xenofobia. Ele se orgulha ao afirmar que mais de 500 pessoas já “foram devolvidas”. Para onde mesmo? E termina: “Quem aqui desembarca deve respeitar as “nossas regras e nossa cultura”. Ou seja, e trocando em miúdos: nada de imigrantes pobre! Florianópolis não fica no Brasil? Brasileiros não tem livre circulação no seu território? O nome disso é autoritarismo e fascismo . Eugenia social. Que Brasil é esse que aparece nesse vídeo querendo passar a imagem de “civilizado”? É a barbárie.
Todos os dias centenas de pessoas chegam em Florianópolis por aqui, a nossa rodoviária. Para garantir um controle de quem chega, instalamos aqui um posto avançado da nossa assistência social. Se chegou sem emprego e local para morar, a gente dá a passagem de volta. É como esse caso aqui. Nós recebemos em Florianópolis um senhor que veio de um município que
Em minha opinião, precisamos incluir ainda mais África no ensino da nossa história. Na verdade, as muitas africas que fizeram o Brasil. Acredito que o caminho seja criar protagonistas que as crianças brasileiras se identifiquem.
Dia histórico para o Brasil. Jair Bolsonaro e os demais 7 réus, todos de alta patente, foram todos condenados. Agora só falta discutir a dosimetria das penas: que é a avaliação de cada pena. Hora de dar um basta ao escárnio, ao negacionismo, à falta de afeto, ao racismo, à misoginia, e (o que foi julgado) à tentativa de golpe e abolição do estado de direito. Hora de dar um basta às tentativas de suprimir a democracia e a república. Elas são maiores do que todos esses personagens que formaram uma quadrilha criminosa. Sorte a nossa viver como testemunhas desse dia histórico. Mas agora precisamos da verdadeira pacificação que será feita a partir do diálogo e da moderação dos ânimos.
Cultura imperial e etnocêntrica se inscreve nos grandes e pequenos detalhes. Por que será que chamamos de universal — o que é europeu ou norte-americano — e de regional, étnico, o que vem de outros países? Toda cultura é universal e também regional. @kleber_mendonca_filho @wagnermoura_brasil Um exemplo dessa postura foi o que aconteceu no último Critics Choice Awards 2026, que ocorreu nesse domingo (4 de jan) em Los Angeles O filme brasileiro “O Agente Secreto” — dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura (e se você ainda não viu, corre pra assistir na telinha do cinema) — conquistou a categoria de Melhor Filme Internacional / Melhor Filme em Língua Estrangeira. Essa é a primeira vez que um filme brasileiro vence nessa categoria no Critics Choice, considerado um dos principais prêmios da crítica cinematográfica ocidental e um termômetro importante para o Óscar. A vitória histórica, foi entregue, porém, de forma inesperada — para praticarmos um eufemismo. O anúncio (como vocês podem ver na primeira parte do vídeo desse insta) e a entrega do prêmio não aconteceram durante a cerimônia principal televisionada, como costuma ocorrer nas categorias de destaque. Em vez disso, o troféu foi entregue no tapete vermelho, antes da transmissão oficial, enquanto o diretor e a produtora concediam entrevistas. Por isso, Kleber e a equipe levaram um susto, a apresentadora norte-americana se saiu com um sorriso sem graça. Já os diretores não subiram ao palco para receber o prêmio nem fizeram discurso diante das câmeras. Tudo isso gerou estranhamento e críticas. O próprio Kleber comentou o episódio, classificando a decisão como uma “falta de atenção” ao cinema brasileiro, por não dar ao prêmio o mesmo destaque de outros anos. Como prêmio de consolação resolveram pedir para que Kleber e Wagner anunciassem o melhor filme (essa é a segunda parte do vídeo que apresento nesse post). Wagner deu o troco. Disse que ia anunciar o “filme internacional” pois é assim que no Brasil chamamos. Ou seja, mostrou como se para “eles”, “nós” somos estrangeiros. Já para “nós”, “eles” são estrangeiros. É preciso descolonizar a nossa imaginação.
Unlock full access to all creators
You're viewing the first 5 creators. Subscribe to see all results and access advanced filters.
Upgrade to ProThis account appears as recommended in the profiles of these creators: