@correa_clarissa
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Terminei de assistir à série espanhola “Não nos calaremos” (Nin una más) e ela me tocou porque não fala só de violência explícita. Fala do silêncio, da normalização, da culpa deslocada, do pacto social que protege o agressor, da vergonha, do medo, da mulher que aprende a duvidar de si. E é aí que dói. Muitas mulheres sofrem abuso sem saber que estão sendo abusadas. O abuso não começa no extremo, no tapa, no estupro, no grito. Ele começa no desrespeito naturalizado, naquele controle disfarçado de cuidado, na manipulação que se confunde com amor, na invasão que se chama proximidade, na culpa que é colocada como responsabilidade, no medo que vira adaptação. O abuso começa quando a mulher aprende a se diminuir pra não perder, a se calar pra não provocar, a se moldar pra caber, a justificar pra não encarar a dor. E aí o corpo vai aprendendo a viver em alerta, a mente vai aprendendo a relativizar, a alma vai aprendendo a se esconder. Muitas só reconhecem depois. Eu, por exemplo, fui reconhecer, reviver, relembrar anos depois (tem uma carta no meu livro "As cartas que nunca mandei" que fala disso). Às vezes a ficha só cai anos depois. Numa terapia. Dirigindo. Numa série. Num livro. Numa memória que surge no meio da tarde. Existe uma violência que não deixa hematoma, mas reorganiza a forma de existir. Uma violência que não vira boletim, mas vira ansiedade, culpa, vergonha, confusão, autossilenciamento, medo de vínculo, dificuldade de receber. E o mais cruel: ela é ensinada, repetida, normalizada. É por isso que tanta mulher demora a nomear, já que quase ninguém ensinou a reconhecer. Inúmeras vezes a dor não é validada, é chamada de exagero, drama, sensibilidade. Nomear pode mudar tudo. Não vai apagar o que aconteceu, mas vai devolver clareza e dignidade. Reconhecer não te prende ao passado, pelo contrário: te devolve ao presente. Porque é só quando algo ganha nome que o significado ganha espaço, deixa de ser confusão e vira real possibilidade de mudança. Te abraço daqui, Clarissa P.S.: se você está passando por qualquer tipo de abuso (físico, psicólogico, sexual, verbal, patrimonial, moral) busca amparo e ajuda de alguém que você confia.
O processo de emagrecimento não é linear. Ele mexe com diversas camadas emocionais. Falo isso pela minha experiência nos atendimentos e, também, por experiência própria. Uma coisa eu estou aprendendo: é impossível a gente modificar aquilo que não gosta se rejeitando. Para mudar, é preciso acolher, aceitar, integrar nossas partes. Aceitar não significa se conformar, e sim entender que aquilo, hoje, faz parte de nós. Abraça quem tu é e, assim, começa a fazer a tua caminhada em busca do que tu deseja. Te abraço daqui, Clarissa
Vamos falar um pouquinho sobre traição? A traição vai além do corpo, é uma questão de lealdade, de quebrar um acordo com o outro. Tudo seria tão mais fácil se as pessoas soubessem usar o diálogo como forma de comunicar seus desejos/anseios. Te abraço daqui, Clarissa
Já tive uma perda importante: a da vó Lalá, minha madrinha e avó materna. Pessoa de riso fácil, o melhor senso de humor que já vi, dona de um coração grande, vaidosa que só ela, sempre com uma palavra doce e braços abertos pra distribuir carinho e aconchego. Não havia quem não gostasse dela. Me escrevia sempre um bilhete cheio de amor e, toda vez que eu estava lá em Rio Grande, engatávamos conversas longas sobre a vida enquanto ela preparava a comida. Após o almoço, ela via o jornal e eu ficava ao lado dela. Os olhos fechavam, eu dizia "tira o óculos pra ficar mais confortável, vó" e ela respondia "mas eu não tô dormindo" (ela cochilava sempre). Em todas as ligações, ela iniciava a conversa do mesmo jeito "oi, bonequinha linda da vó". Era minha confidente, cúmplice e defensora. Quando ela partiu eu tinha 32 anos e me senti bem perdida. Minha mãe, na época, disse: "perder uma mãe faz com que a gente se sinta sem casa". Hoje eu entendo o que ela quis dizer: mãe é lar. E perder uma mãe faz com que a gente sinta desamparo, abandono, uma sensação ruim de não ter pra onde voltar. Depois da mudança dos meus pais para Santa Catarina, eu ainda permaneci em Porto Alegre por quase 11 anos. E sempre que estava pensativa, preocupada, chateada ou tinha alguma decisão importante pra tomar dirigia até a antiga casa deles, onde morei a maior parte da vida. Passava pela frente, buscava lembranças ou algum pedacinho das minhas raízes. Às vezes estacionava do outro lado da rua e ficava olhando para a casa, tentando encontrar aquele colo que faltava. Aquilo me trazia uma profunda calma. Hoje, ao remexer numa caixa, encontrei um bilhete da minha avó. Nele, dizia "bonequinha linda da vó, as dificuldades jamais podem tirar nossa capacidade de sorrir e amar". A morte é uma certeza da vida. E nesta vida tive muita, muita sorte por ter amado e sido amada tão profundamente por essas duas mulheres, que tanto me ensinaram sobre aquilo que realmente importa: o amor puro. Te abraço daqui, Clarissa
Terminei de assistir à série espanhola “Não nos calaremos” (Nin una más) e ela me tocou porque não fala só de violência explícita. Fala do silêncio, da normalização, da culpa deslocada, do pacto social que protege o agressor, da vergonha, do medo, da mulher que aprende a duvidar de si. E é aí que dói. Muitas mulheres sofrem abuso sem saber que estão sendo abusadas. O abuso não começa no extremo, no tapa, no estupro, no grito. Ele começa no desrespeito naturalizado, naquele controle disfarçado de cuidado, na manipulação que se confunde com amor, na invasão que se chama proximidade, na culpa que é colocada como responsabilidade, no medo que vira adaptação. O abuso começa quando a mulher aprende a se diminuir pra não perder, a se calar pra não provocar, a se moldar pra caber, a justificar pra não encarar a dor. E aí o corpo vai aprendendo a viver em alerta, a mente vai aprendendo a relativizar, a alma vai aprendendo a se esconder. Muitas só reconhecem depois. Eu, por exemplo, fui reconhecer, reviver, relembrar anos depois (tem uma carta no meu livro "As cartas que nunca mandei" que fala disso). Às vezes a ficha só cai anos depois. Numa terapia. Dirigindo. Numa série. Num livro. Numa memória que surge no meio da tarde. Existe uma violência que não deixa hematoma, mas reorganiza a forma de existir. Uma violência que não vira boletim, mas vira ansiedade, culpa, vergonha, confusão, autossilenciamento, medo de vínculo, dificuldade de receber. E o mais cruel: ela é ensinada, repetida, normalizada. É por isso que tanta mulher demora a nomear, já que quase ninguém ensinou a reconhecer. Inúmeras vezes a dor não é validada, é chamada de exagero, drama, sensibilidade. Nomear pode mudar tudo. Não vai apagar o que aconteceu, mas vai devolver clareza e dignidade. Reconhecer não te prende ao passado, pelo contrário: te devolve ao presente. Porque é só quando algo ganha nome que o significado ganha espaço, deixa de ser confusão e vira real possibilidade de mudança. Te abraço daqui, Clarissa P.S.: se você está passando por qualquer tipo de abuso (físico, psicólogico, sexual, verbal, patrimonial, moral) busca amparo e ajuda de alguém que você confia.
O processo de emagrecimento não é linear. Ele mexe com diversas camadas emocionais. Falo isso pela minha experiência nos atendimentos e, também, por experiência própria. Uma coisa eu estou aprendendo: é impossível a gente modificar aquilo que não gosta se rejeitando. Para mudar, é preciso acolher, aceitar, integrar nossas partes. Aceitar não significa se conformar, e sim entender que aquilo, hoje, faz parte de nós. Abraça quem tu é e, assim, começa a fazer a tua caminhada em busca do que tu deseja. Te abraço daqui, Clarissa
Vamos falar um pouquinho sobre traição? A traição vai além do corpo, é uma questão de lealdade, de quebrar um acordo com o outro. Tudo seria tão mais fácil se as pessoas soubessem usar o diálogo como forma de comunicar seus desejos/anseios. Te abraço daqui, Clarissa
Já tive uma perda importante: a da vó Lalá, minha madrinha e avó materna. Pessoa de riso fácil, o melhor senso de humor que já vi, dona de um coração grande, vaidosa que só ela, sempre com uma palavra doce e braços abertos pra distribuir carinho e aconchego. Não havia quem não gostasse dela. Me escrevia sempre um bilhete cheio de amor e, toda vez que eu estava lá em Rio Grande, engatávamos conversas longas sobre a vida enquanto ela preparava a comida. Após o almoço, ela via o jornal e eu ficava ao lado dela. Os olhos fechavam, eu dizia "tira o óculos pra ficar mais confortável, vó" e ela respondia "mas eu não tô dormindo" (ela cochilava sempre). Em todas as ligações, ela iniciava a conversa do mesmo jeito "oi, bonequinha linda da vó". Era minha confidente, cúmplice e defensora. Quando ela partiu eu tinha 32 anos e me senti bem perdida. Minha mãe, na época, disse: "perder uma mãe faz com que a gente se sinta sem casa". Hoje eu entendo o que ela quis dizer: mãe é lar. E perder uma mãe faz com que a gente sinta desamparo, abandono, uma sensação ruim de não ter pra onde voltar. Depois da mudança dos meus pais para Santa Catarina, eu ainda permaneci em Porto Alegre por quase 11 anos. E sempre que estava pensativa, preocupada, chateada ou tinha alguma decisão importante pra tomar dirigia até a antiga casa deles, onde morei a maior parte da vida. Passava pela frente, buscava lembranças ou algum pedacinho das minhas raízes. Às vezes estacionava do outro lado da rua e ficava olhando para a casa, tentando encontrar aquele colo que faltava. Aquilo me trazia uma profunda calma. Hoje, ao remexer numa caixa, encontrei um bilhete da minha avó. Nele, dizia "bonequinha linda da vó, as dificuldades jamais podem tirar nossa capacidade de sorrir e amar". A morte é uma certeza da vida. E nesta vida tive muita, muita sorte por ter amado e sido amada tão profundamente por essas duas mulheres, que tanto me ensinaram sobre aquilo que realmente importa: o amor puro. Te abraço daqui, Clarissa
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