@historiaemimagens
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🗿Compartilhando as mais raras e diversificadas histórias já contadas. ✍🏼 @hyeser 📧 [email protected]
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Em 1996, o Rio de Janeiro parou. Michael Jackson, o homem mais famoso do planeta, desembarcava no Brasil com uma missão: filmar o clipe de They Don’t Care About Us, dirigido por Spike Lee. Uma música sobre injustiça, desigualdade e exclusão. E, ironicamente, o governo brasileiro tentou impedi-lo de gravar justamente onde essas feridas eram mais visíveis. As autoridades alegavam que o clipe “mancharia a imagem do país”. Que mostrar uma favela para o mundo seria um desserviço. O pedido oficial para barrar as filmagens chegou a virar processo, até que uma liminar liberou o projeto. Mas o desafio maior ainda estava por vir. Michael e Spike queriam filmar dentro do morro Dona Marta, no alto de Botafogo. Naquela época, o tráfico de drogas controlava a região, e entrar ali sem permissão era impensável. A produção tentou conversar com as autoridades locais, sem sucesso. Então Spike Lee fez o que ninguém esperava: buscou o aval de quem realmente mandava no morro. O chefe do tráfico teria hesitado no início, mas, ao saber que era “para o Michael Jackson”, sua resposta ficou marcada na história: “Com ele aqui, este vai ser o lugar mais seguro do mundo.” E foi. Durante as gravações, o Dona Marta virou o centro do planeta. Crianças corriam pelas vielas, moradores assistiam das janelas, o Olodum fazia o chão tremer. O homem mais famoso do mundo dançava entre pessoas que, até então, o mundo preferia não ver. O resultado foi um dos videoclipes mais poderosos da carreira de Michael Jackson, e uma das imagens mais simbólicas já registradas no Brasil: o rei do pop, cercado pelo som da Bahia e pela alma do morro, transformando exclusão em arte e resistência. O governo quis esconder, a favela mostrou e o mundo nunca esqueceu.
A professora escrevia “Napoleão Bonaparte” no quadro, enquanto a turma bocejava. Para a maioria dos alunos, o que acontecia ali era apenas mais uma aula sobre guerras e imperadores de um tempo distante. Mas, para Acerola, aquele assunto fazia sentido, só precisava ser contado de outro jeito. “Posso explicar do meu jeito, professora?” — ele perguntou. A turma riu. Ela hesitou, mas deixou. E então, ele começou. E de repente, o mapa da Europa ganhou cor. As guerras napoleônicas viraram brigas de território. O bloqueio continental virou uma estratégia de sobrevivência. A fuga da família real portuguesa virou a correria de quem precisa sair da área pra continuar vivo. A professora ficou em silêncio. A turma, que minutos antes mal prestava atenção, agora olhava para Acerola como quem assiste um filme. Pela primeira vez, o livro e o morro contavam a mesma história, uma história de poder, de domínio, de medo e de resistência. A cena faz parte do episódio “A Coroa do Imperador”, da série Cidade dos Homens (2002) e pode ser assistida no @globoplay. E, embora pareça simples, ela carrega a essência de tudo o que aquele projeto representou: a inteligência que nasce da vivência, o saber que não vem dos livros, mas da vida. Criada por Fernando Meirelles e Kátia Lund, a série acompanhava Acerola (Douglas Silva) e Laranjinha (Darlan Cunha) crescendo no morro, enfrentando a escola, o trabalho e o peso de ser homem num mundo que não dá tempo pra ser menino. #publicidade @globoplay
-Olha, senhora! -Oi. Se eu conseguir falar o que a senhora falou sobre a aula passada, a gente pode ir no passeio e ver a coroa? Pode, mas eu quero ver isso. Ah, então tá. Pode falar.
No coração da Guiana existe uma queda-d’água que parece saída de um mito. O rio Potaro corre tranquilo até que, de repente, despenca em um único salto de 226 metros. É quase cinco vezes a altura do Niagara. Seu nome: Kaieteur Falls. Nos números, já impressiona: em média, 23.400 pés cúbicos de água por segundo caem no abismo, criando uma névoa permanente. Mas ao vivo, é outra coisa. O som ensurdecedor, o vento úmido no rosto e a visão da cortina d’água fazem sentir que ali a natureza ainda dita as regras. Para os povos Patamona, Kaieteur carrega uma lenda: o chefe Kai teria se sacrificado, lançando-se nas águas para salvar seu povo. O nome da queda mantém viva a memória desse ato de coragem. A “descoberta” ocidental aconteceu em 1870, quando o geólogo Charles Barrington Brown mediu a catarata. Desde então, o acesso continua restrito. O visitante chega em aviões leves que partem de Georgetown, pousa em uma pequena pista e caminha até os miradouros. Em dias de chuva, a queda se abre em mais de 120 metros de largura, formando arco-íris na névoa. A grandiosidade convive com delicadezas únicas. Nas rochas encharcadas vivem bromélias gigantes que guardam poças de água onde se reproduz o golden rocket frog, espécie de sapo que só existe ali. Criado em 1929, o Kaieteur National Park protege esse ecossistema raro e mantém a paisagem quase intocada: apenas alguns milhares de visitantes chegam a cada ano. Comparações ajudam a entender: Niagara é espetáculo urbano, Victoria é cortina infinita; já Kaieteur é outra coisa. Um salto único, altíssimo e poderoso, em meio à floresta amazônica. Ali, diante do abismo, não se vê apenas água caindo. Vê-se tempo, memória e a lembrança de que certos lugares pertencem mais à natureza do que a nós. Kaieteur não se visita: se testemunha.
Era uma quarta-feira qualquer, 20 de agosto de 2014. O estúdio do Casos de Família, com suas paredes coloridas, o sofá central e a plateia barulhenta, se preparava para mais um programa. A apresentadora anunciava o tema do dia com entusiasmo, e ninguém parecia perceber que aquilo, anos depois, soaria quase inacreditável. No palco, um grupo de modelos desfilava. Na plateia, homens convidados para participar de um “desafio”: adivinhar quem era mulher e quem era travesti. A cada palpite, o público ria, aplaudia, reagia com surpresa. As participantes sorriam, algumas constrangidas, outras jogando com o personagem que a TV esperava delas. Tudo era tratado como brincadeira, parte da lógica do entretenimento da época: o Casos de Família era um sucesso exatamente por transformar dilemas, conflitos e provocações em espetáculo. A estrutura era conhecida, abrir o programa com um suspense, manter o público tenso, revelar o resultado no fim. Mas naquela tarde, o suspense não era sobre um relacionamento, nem sobre traições, e sim sobre corpos. Sobre o que se via e o que se “achava que via”. Naquele tempo, o formato passava despercebido. A televisão brasileira ainda apostava no choque, no humor de auditório, na “curiosidade” sobre o diferente. E o público, acostumado com esse tipo de programa, aplaudia. Anos depois, o vídeo ressurgiu nas redes. As pessoas olham, se espantam, riem com nervosismo, e tentam entender como algo assim foi possível.
Bruna, o Wellington? Sim. Bruna, que é a número 2. Você acha que é mulher ou travesti? Travesti. Travesti. Por favor, Djalba, você? Também, travesti. Travesti. Bom, nesse caso os dois concordam. Por favor, Bruna, pode vir aqui na frente. Olha que bonita, hein? Bonita.
Durante as gravações de Malévola (2014), a produção enfrentou um desafio que ninguém esperava, e ele não tinha nada a ver com efeitos visuais, cronogramas ou orçamento. Tinha a ver com medo. Angelina Jolie havia passado por uma transformação radical para dar vida à vilã mais icônica da Disney. Sob o comando do lendário artista Rick Baker, próteses afiavam suas maçãs do rosto, os chifres eram moldados com precisão e presilhas magnéticas, e as lentes de contato transformavam seus olhos em algo quase inumano. O resultado era impressionante, e assustador. No set, todos sabiam que o visual estava perfeito. Mas quando as gravações começaram, surgiu um problema: as crianças que interpretariam a pequena Aurora simplesmente não conseguiam chegar perto dela. A maquiagem e o figurino eram tão realistas que nenhuma delas conseguia conter o pavor. A equipe tentou de tudo: ensaios, brincadeiras, conversas. Nada funcionava. Até que, num momento de pura coincidência, a solução apareceu onde ninguém esperava, dentro de casa. Vivienne Jolie-Pitt, filha mais nova de Angelina e Brad Pitt, visitava o set com frequência. Com apenas quatro anos, ela era a única que não se assustava com o visual da mãe. “Ela sabia que era só uma fantasia”, contou Angelina em entrevista. Quando a viu caracterizada como Malévola, Vivienne apenas riu e correu para abraçá-la. A equipe percebeu na hora: ela era a única criança capaz de contracenar com aquela personagem sem medo. E assim, Vivienne foi escalada para viver a princesa Aurora ainda pequena. A naturalidade da menina permitiu que o filme tivesse uma das cenas mais delicadas de toda a produção, aquela em que a temida Malévola observa a criança com curiosidade, e a menina, sem temor, toca sua mão. O resto é história. Malévola estreou em 2014, se tornou um sucesso mundial e deu à Disney uma nova forma de contar o ponto de vista de suas vilãs.
Olá. Vá embora. Vá. Vá embora.
Em 1996, o Rio de Janeiro parou. Michael Jackson, o homem mais famoso do planeta, desembarcava no Brasil com uma missão: filmar o clipe de They Don’t Care About Us, dirigido por Spike Lee. Uma música sobre injustiça, desigualdade e exclusão. E, ironicamente, o governo brasileiro tentou impedi-lo de gravar justamente onde essas feridas eram mais visíveis. As autoridades alegavam que o clipe “mancharia a imagem do país”. Que mostrar uma favela para o mundo seria um desserviço. O pedido oficial para barrar as filmagens chegou a virar processo, até que uma liminar liberou o projeto. Mas o desafio maior ainda estava por vir. Michael e Spike queriam filmar dentro do morro Dona Marta, no alto de Botafogo. Naquela época, o tráfico de drogas controlava a região, e entrar ali sem permissão era impensável. A produção tentou conversar com as autoridades locais, sem sucesso. Então Spike Lee fez o que ninguém esperava: buscou o aval de quem realmente mandava no morro. O chefe do tráfico teria hesitado no início, mas, ao saber que era “para o Michael Jackson”, sua resposta ficou marcada na história: “Com ele aqui, este vai ser o lugar mais seguro do mundo.” E foi. Durante as gravações, o Dona Marta virou o centro do planeta. Crianças corriam pelas vielas, moradores assistiam das janelas, o Olodum fazia o chão tremer. O homem mais famoso do mundo dançava entre pessoas que, até então, o mundo preferia não ver. O resultado foi um dos videoclipes mais poderosos da carreira de Michael Jackson, e uma das imagens mais simbólicas já registradas no Brasil: o rei do pop, cercado pelo som da Bahia e pela alma do morro, transformando exclusão em arte e resistência. O governo quis esconder, a favela mostrou e o mundo nunca esqueceu.
A professora escrevia “Napoleão Bonaparte” no quadro, enquanto a turma bocejava. Para a maioria dos alunos, o que acontecia ali era apenas mais uma aula sobre guerras e imperadores de um tempo distante. Mas, para Acerola, aquele assunto fazia sentido, só precisava ser contado de outro jeito. “Posso explicar do meu jeito, professora?” — ele perguntou. A turma riu. Ela hesitou, mas deixou. E então, ele começou. E de repente, o mapa da Europa ganhou cor. As guerras napoleônicas viraram brigas de território. O bloqueio continental virou uma estratégia de sobrevivência. A fuga da família real portuguesa virou a correria de quem precisa sair da área pra continuar vivo. A professora ficou em silêncio. A turma, que minutos antes mal prestava atenção, agora olhava para Acerola como quem assiste um filme. Pela primeira vez, o livro e o morro contavam a mesma história, uma história de poder, de domínio, de medo e de resistência. A cena faz parte do episódio “A Coroa do Imperador”, da série Cidade dos Homens (2002) e pode ser assistida no @globoplay. E, embora pareça simples, ela carrega a essência de tudo o que aquele projeto representou: a inteligência que nasce da vivência, o saber que não vem dos livros, mas da vida. Criada por Fernando Meirelles e Kátia Lund, a série acompanhava Acerola (Douglas Silva) e Laranjinha (Darlan Cunha) crescendo no morro, enfrentando a escola, o trabalho e o peso de ser homem num mundo que não dá tempo pra ser menino. #publicidade @globoplay
-Olha, senhora! -Oi. Se eu conseguir falar o que a senhora falou sobre a aula passada, a gente pode ir no passeio e ver a coroa? Pode, mas eu quero ver isso. Ah, então tá. Pode falar.
No coração da Guiana existe uma queda-d’água que parece saída de um mito. O rio Potaro corre tranquilo até que, de repente, despenca em um único salto de 226 metros. É quase cinco vezes a altura do Niagara. Seu nome: Kaieteur Falls. Nos números, já impressiona: em média, 23.400 pés cúbicos de água por segundo caem no abismo, criando uma névoa permanente. Mas ao vivo, é outra coisa. O som ensurdecedor, o vento úmido no rosto e a visão da cortina d’água fazem sentir que ali a natureza ainda dita as regras. Para os povos Patamona, Kaieteur carrega uma lenda: o chefe Kai teria se sacrificado, lançando-se nas águas para salvar seu povo. O nome da queda mantém viva a memória desse ato de coragem. A “descoberta” ocidental aconteceu em 1870, quando o geólogo Charles Barrington Brown mediu a catarata. Desde então, o acesso continua restrito. O visitante chega em aviões leves que partem de Georgetown, pousa em uma pequena pista e caminha até os miradouros. Em dias de chuva, a queda se abre em mais de 120 metros de largura, formando arco-íris na névoa. A grandiosidade convive com delicadezas únicas. Nas rochas encharcadas vivem bromélias gigantes que guardam poças de água onde se reproduz o golden rocket frog, espécie de sapo que só existe ali. Criado em 1929, o Kaieteur National Park protege esse ecossistema raro e mantém a paisagem quase intocada: apenas alguns milhares de visitantes chegam a cada ano. Comparações ajudam a entender: Niagara é espetáculo urbano, Victoria é cortina infinita; já Kaieteur é outra coisa. Um salto único, altíssimo e poderoso, em meio à floresta amazônica. Ali, diante do abismo, não se vê apenas água caindo. Vê-se tempo, memória e a lembrança de que certos lugares pertencem mais à natureza do que a nós. Kaieteur não se visita: se testemunha.
Era uma quarta-feira qualquer, 20 de agosto de 2014. O estúdio do Casos de Família, com suas paredes coloridas, o sofá central e a plateia barulhenta, se preparava para mais um programa. A apresentadora anunciava o tema do dia com entusiasmo, e ninguém parecia perceber que aquilo, anos depois, soaria quase inacreditável. No palco, um grupo de modelos desfilava. Na plateia, homens convidados para participar de um “desafio”: adivinhar quem era mulher e quem era travesti. A cada palpite, o público ria, aplaudia, reagia com surpresa. As participantes sorriam, algumas constrangidas, outras jogando com o personagem que a TV esperava delas. Tudo era tratado como brincadeira, parte da lógica do entretenimento da época: o Casos de Família era um sucesso exatamente por transformar dilemas, conflitos e provocações em espetáculo. A estrutura era conhecida, abrir o programa com um suspense, manter o público tenso, revelar o resultado no fim. Mas naquela tarde, o suspense não era sobre um relacionamento, nem sobre traições, e sim sobre corpos. Sobre o que se via e o que se “achava que via”. Naquele tempo, o formato passava despercebido. A televisão brasileira ainda apostava no choque, no humor de auditório, na “curiosidade” sobre o diferente. E o público, acostumado com esse tipo de programa, aplaudia. Anos depois, o vídeo ressurgiu nas redes. As pessoas olham, se espantam, riem com nervosismo, e tentam entender como algo assim foi possível.
Bruna, o Wellington? Sim. Bruna, que é a número 2. Você acha que é mulher ou travesti? Travesti. Travesti. Por favor, Djalba, você? Também, travesti. Travesti. Bom, nesse caso os dois concordam. Por favor, Bruna, pode vir aqui na frente. Olha que bonita, hein? Bonita.
Durante as gravações de Malévola (2014), a produção enfrentou um desafio que ninguém esperava, e ele não tinha nada a ver com efeitos visuais, cronogramas ou orçamento. Tinha a ver com medo. Angelina Jolie havia passado por uma transformação radical para dar vida à vilã mais icônica da Disney. Sob o comando do lendário artista Rick Baker, próteses afiavam suas maçãs do rosto, os chifres eram moldados com precisão e presilhas magnéticas, e as lentes de contato transformavam seus olhos em algo quase inumano. O resultado era impressionante, e assustador. No set, todos sabiam que o visual estava perfeito. Mas quando as gravações começaram, surgiu um problema: as crianças que interpretariam a pequena Aurora simplesmente não conseguiam chegar perto dela. A maquiagem e o figurino eram tão realistas que nenhuma delas conseguia conter o pavor. A equipe tentou de tudo: ensaios, brincadeiras, conversas. Nada funcionava. Até que, num momento de pura coincidência, a solução apareceu onde ninguém esperava, dentro de casa. Vivienne Jolie-Pitt, filha mais nova de Angelina e Brad Pitt, visitava o set com frequência. Com apenas quatro anos, ela era a única que não se assustava com o visual da mãe. “Ela sabia que era só uma fantasia”, contou Angelina em entrevista. Quando a viu caracterizada como Malévola, Vivienne apenas riu e correu para abraçá-la. A equipe percebeu na hora: ela era a única criança capaz de contracenar com aquela personagem sem medo. E assim, Vivienne foi escalada para viver a princesa Aurora ainda pequena. A naturalidade da menina permitiu que o filme tivesse uma das cenas mais delicadas de toda a produção, aquela em que a temida Malévola observa a criança com curiosidade, e a menina, sem temor, toca sua mão. O resto é história. Malévola estreou em 2014, se tornou um sucesso mundial e deu à Disney uma nova forma de contar o ponto de vista de suas vilãs.
Olá. Vá embora. Vá. Vá embora.
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