@eusou_paulasantos
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Psicanalista | empresária | escritora ✍️ Metade de mim é dizer; e a outra, escutar. Metade de mim é palavra; e a outra, também. @maosdaterraoficial
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Hoje é 8 de março. A violência contra mulheres não nasce apenas do ódio. Muitas vezes ela nasce de algo mais difícil de admitir: o ressentimento. Durante muito tempo, a cultura ensinou aos homens que o mundo lhes pertencia; que o espaço, a palavra e a autoridade eram naturalmente seus. Quando esse lugar começa a se deslocar, algo vacila. E, para alguns, a liberdade feminina passa a ser vivida como ameaça. A psicanálise nos lembra de algo importante: o ressentimento costuma aparecer quando alguém sente que perdeu um lugar que acreditava ser seu por direito. Talvez uma das tarefas do nosso tempo seja justamente essa: aprender a viver num mundo onde ninguém precisa diminuir o outro para existir.
Hoje é o último dia do Setembro Amarelo. Escolhi falar hoje porque o último dia é quando o tema começa a ser esquecido e é exatamente aí que ele precisa continuar sendo dito. O Pedro tinha 17 anos. E, há dez anos, ele partiu. Desde então, eu aprendi que a depressão não é ausência de fé, nem falta de amor. É o colapso do desejo, o esgotamento da libido que sustenta o sujeito no mundo. Freud dizia que, quando isso acontece, o investimento libidinal se recolhe. A energia que antes ia para fora volta-se contra o próprio Eu. O sujeito passa a ser alvo do amor que perdeu. E é nesse ponto que ele não quer morrer: ele quer parar de sofrer. A depressão acontece quando o simbólico falha e o sujeito não consegue mais nomear a própria dor. A palavra se esgota, e o silêncio toma o lugar da vida. É por isso que o suicídio não é um ato de escolha racional. É um ato de desespero; o último grito de uma dor que não conseguiu mais se dizer. Eu falo como tia, antes de falar como psicanalista. Porque há dores das quais a teoria não dá conta. Mas a escuta, sim. Se você convive com alguém que sofre, não tente curar. Fique. Ficar é o que cura. E, se é você quem está sofrendo, procure ajuda. Há quem saiba escutar, há quem possa sustentar o seu peso até que o desejo volte a respirar. Ligue 188 — o CVV está disponível 24 horas, gratuitamente. Dez anos depois, eu sigo lembrando o Pedro. E, com ele, todos os Pedros que ainda tentam existir. Eu sou a Paula. Tia do Pedro. E psicanalista de tantos outros Pedros. E, enquanto houver palavra, haverá caminho.
O sofrimento nem sempre vem do fim em si. Muitas vezes, vem do fato de que o fim não foi decidido pelo sujeito. Na lógica do ego, a história só termina quando ele comanda o roteiro. Mas na lógica do inconsciente, a história termina quando a cena já não se sustenta, mesmo que o sujeito insista nela. Freud chamou de repetição essa tendência de manter viva uma experiência que já terminou. Não por desejo, mas como forma de negar a perda. Lacan aprofundou isso dizendo: “O sujeito se constitui em torno da falta.” Ou seja: enquanto houver apego ao papel antigo, o sujeito não atravessa, repete. E repetir, mesmo que doa, ainda é forma de presença. É maneira de dizer: ainda estou aqui. Mas essa presença é ficção. É o ego gritando no lugar onde deveria haver silêncio. A psicanálise não diz: “solte.” Diz: escute o que está se mantendo vivo apenas porque você não quer que acabe. E talvez, quando essa escuta for possível, o desejo — não o do outro, mas o seu — possa finalmente encontrar outro caminho. (Paula Santos)
Na boca de quem diz, “se ponha no seu lugar” não é apenas uma frase. É um ato falho. Não é orientação. É recalque tentando se reinstalar. Quem diz isso, inconscientemente, está tentando restaurar a fantasia de controle sobre o Outro. Está dizendo: “retorne ao lugar que eu lhe dei para que o meu gozo permaneça intacto.” É uma reação ao desencaixe. O Outro — geralmente uma mulher, um sujeito marginalizado ou insubmisso — saiu do papel que sustentava a cena narcísica de quem fala. Dizer “se ponha no seu lugar” é, portanto, uma tentativa de defender o eu do colapso simbólico. É o supereu falando na forma de ofensa, mas servindo ao desejo de não perder o domínio do enredo. Já na pele de quem escuta, essa frase não chega como orientação. Chega como golpe. Porque ela tenta lembrar o sujeito de que ele nunca teve lugar próprio, só um lugar designado. E, se a mulher que escuta isso já se deslocou subjetivamente, a frase bate, mas não entra. Ela ouve o ataque, mas não se identifica mais com a cena que tentam reencenar. Essa mulher já saiu da posição de objeto. Ela já se implicou no desejo próprio. E é por isso que sua simples presença ameaça o lugar do Outro. Porque o verdadeiro escândalo não é que ela fale. É que ela não precisa mais da autorização de ninguém para existir. E esse tipo de sujeito não volta. (Paula Santos)
A psicanálise não pergunta apenas o que você deseja. Ela pergunta o lugar que você ocupa dentro do seu próprio desejo. Quando alguém sofre repetidamente nas relações, no trabalho, nas escolhas, o problema raramente é “escolher a pessoa errada” ou “querer demais”. O ponto costuma ser outro: a tentativa insistente de resolver, no outro ou numa situação, algo que diz respeito à própria falta. E aqui vale um cuidado importante. A falta não é um erro de percurso, nem uma falha de caráter, nem algo que precisa ser eliminado para que a vida comece. Ela é parte da estrutura. O sofrimento começa quando essa falta vira demanda impossível: quando se espera do outro completude, garantia, salvação, sentido. Ninguém consegue ocupar esse lugar sem que a relação adoeça. Talvez por isso tanta gente repita histórias diferentes com o mesmo desfecho. Mudam as pessoas, mudam os cenários, mas o roteiro se mantém. A pergunta que desloca não é moral, nem acusatória. Ela é clínica: o que você está tentando sustentar, resolver ou tamponar através dessa relação, desse trabalho, desse projeto? Quando essa pergunta aparece, algo muda. Não porque o vazio desaparece; ele não desaparece. Mas porque o sujeito deixa de terceirizar para o mundo aquilo que precisa ser elaborado. Psicanálise não promete felicidade plena. Ela oferece algo mais honesto: a possibilidade de escolher com menos ilusão e mais responsabilidade. Se esse texto te atravessou, salva. Às vezes, a legenda trabalha depois que o vídeo termina.
Hoje é 8 de março. A violência contra mulheres não nasce apenas do ódio. Muitas vezes ela nasce de algo mais difícil de admitir: o ressentimento. Durante muito tempo, a cultura ensinou aos homens que o mundo lhes pertencia; que o espaço, a palavra e a autoridade eram naturalmente seus. Quando esse lugar começa a se deslocar, algo vacila. E, para alguns, a liberdade feminina passa a ser vivida como ameaça. A psicanálise nos lembra de algo importante: o ressentimento costuma aparecer quando alguém sente que perdeu um lugar que acreditava ser seu por direito. Talvez uma das tarefas do nosso tempo seja justamente essa: aprender a viver num mundo onde ninguém precisa diminuir o outro para existir.
Hoje é o último dia do Setembro Amarelo. Escolhi falar hoje porque o último dia é quando o tema começa a ser esquecido e é exatamente aí que ele precisa continuar sendo dito. O Pedro tinha 17 anos. E, há dez anos, ele partiu. Desde então, eu aprendi que a depressão não é ausência de fé, nem falta de amor. É o colapso do desejo, o esgotamento da libido que sustenta o sujeito no mundo. Freud dizia que, quando isso acontece, o investimento libidinal se recolhe. A energia que antes ia para fora volta-se contra o próprio Eu. O sujeito passa a ser alvo do amor que perdeu. E é nesse ponto que ele não quer morrer: ele quer parar de sofrer. A depressão acontece quando o simbólico falha e o sujeito não consegue mais nomear a própria dor. A palavra se esgota, e o silêncio toma o lugar da vida. É por isso que o suicídio não é um ato de escolha racional. É um ato de desespero; o último grito de uma dor que não conseguiu mais se dizer. Eu falo como tia, antes de falar como psicanalista. Porque há dores das quais a teoria não dá conta. Mas a escuta, sim. Se você convive com alguém que sofre, não tente curar. Fique. Ficar é o que cura. E, se é você quem está sofrendo, procure ajuda. Há quem saiba escutar, há quem possa sustentar o seu peso até que o desejo volte a respirar. Ligue 188 — o CVV está disponível 24 horas, gratuitamente. Dez anos depois, eu sigo lembrando o Pedro. E, com ele, todos os Pedros que ainda tentam existir. Eu sou a Paula. Tia do Pedro. E psicanalista de tantos outros Pedros. E, enquanto houver palavra, haverá caminho.
O sofrimento nem sempre vem do fim em si. Muitas vezes, vem do fato de que o fim não foi decidido pelo sujeito. Na lógica do ego, a história só termina quando ele comanda o roteiro. Mas na lógica do inconsciente, a história termina quando a cena já não se sustenta, mesmo que o sujeito insista nela. Freud chamou de repetição essa tendência de manter viva uma experiência que já terminou. Não por desejo, mas como forma de negar a perda. Lacan aprofundou isso dizendo: “O sujeito se constitui em torno da falta.” Ou seja: enquanto houver apego ao papel antigo, o sujeito não atravessa, repete. E repetir, mesmo que doa, ainda é forma de presença. É maneira de dizer: ainda estou aqui. Mas essa presença é ficção. É o ego gritando no lugar onde deveria haver silêncio. A psicanálise não diz: “solte.” Diz: escute o que está se mantendo vivo apenas porque você não quer que acabe. E talvez, quando essa escuta for possível, o desejo — não o do outro, mas o seu — possa finalmente encontrar outro caminho. (Paula Santos)
Na boca de quem diz, “se ponha no seu lugar” não é apenas uma frase. É um ato falho. Não é orientação. É recalque tentando se reinstalar. Quem diz isso, inconscientemente, está tentando restaurar a fantasia de controle sobre o Outro. Está dizendo: “retorne ao lugar que eu lhe dei para que o meu gozo permaneça intacto.” É uma reação ao desencaixe. O Outro — geralmente uma mulher, um sujeito marginalizado ou insubmisso — saiu do papel que sustentava a cena narcísica de quem fala. Dizer “se ponha no seu lugar” é, portanto, uma tentativa de defender o eu do colapso simbólico. É o supereu falando na forma de ofensa, mas servindo ao desejo de não perder o domínio do enredo. Já na pele de quem escuta, essa frase não chega como orientação. Chega como golpe. Porque ela tenta lembrar o sujeito de que ele nunca teve lugar próprio, só um lugar designado. E, se a mulher que escuta isso já se deslocou subjetivamente, a frase bate, mas não entra. Ela ouve o ataque, mas não se identifica mais com a cena que tentam reencenar. Essa mulher já saiu da posição de objeto. Ela já se implicou no desejo próprio. E é por isso que sua simples presença ameaça o lugar do Outro. Porque o verdadeiro escândalo não é que ela fale. É que ela não precisa mais da autorização de ninguém para existir. E esse tipo de sujeito não volta. (Paula Santos)
A psicanálise não pergunta apenas o que você deseja. Ela pergunta o lugar que você ocupa dentro do seu próprio desejo. Quando alguém sofre repetidamente nas relações, no trabalho, nas escolhas, o problema raramente é “escolher a pessoa errada” ou “querer demais”. O ponto costuma ser outro: a tentativa insistente de resolver, no outro ou numa situação, algo que diz respeito à própria falta. E aqui vale um cuidado importante. A falta não é um erro de percurso, nem uma falha de caráter, nem algo que precisa ser eliminado para que a vida comece. Ela é parte da estrutura. O sofrimento começa quando essa falta vira demanda impossível: quando se espera do outro completude, garantia, salvação, sentido. Ninguém consegue ocupar esse lugar sem que a relação adoeça. Talvez por isso tanta gente repita histórias diferentes com o mesmo desfecho. Mudam as pessoas, mudam os cenários, mas o roteiro se mantém. A pergunta que desloca não é moral, nem acusatória. Ela é clínica: o que você está tentando sustentar, resolver ou tamponar através dessa relação, desse trabalho, desse projeto? Quando essa pergunta aparece, algo muda. Não porque o vazio desaparece; ele não desaparece. Mas porque o sujeito deixa de terceirizar para o mundo aquilo que precisa ser elaborado. Psicanálise não promete felicidade plena. Ela oferece algo mais honesto: a possibilidade de escolher com menos ilusão e mais responsabilidade. Se esse texto te atravessou, salva. Às vezes, a legenda trabalha depois que o vídeo termina.
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